Faz hoje 2 anos que comecei a trabalhar aqui. Que comecei a trabalhar. Mudei-me uns dias antes, mas a data oficial é hoje.
A casa que então estava vazia está hoje (moderadamente) cheia das minhas coisas. Sou muito melhor, mais eficiente e competente no meu trabalho. Falo sueco. Quero acreditar que cresci também a nível pessoal mas de momento só me vêm à memória características pouco valorizadas: a auto-suficiência (a minha favorita), o valor da minha companhia, o valor da minha família e dos meus amigos cada vez mais insuflado, a consciência que todos os sonhos dependem de mim - e tenho sentimentos mistos em relação a esta maravilhosa tragédia.
15 de Fevereiro só é importante para mim e também é isso que me torna numa margarida mais crescida.
Ser romântico tem muito que se lhe diga
13 comentários Disse a margarida na/o Quinta-feira, Fevereiro 09, 2012Considero-me uma pessoa romântica (quem é que não?), mas há limites. Não consigo dormir agarrada, em concha ou o que mais seja. Até sozinha só durmo de barriga para cima, com os braços ao lado do corpo, sem me mexer. Se estiver de lado começa-me a doer o braço, ou a perna de cima, ou a de baixo, ou as costas, ou o pé, se tiver o azar de adormecer, no dia seguinte dói-me a pele, fico meia dormente, um suplício de maleitas.
Antes de dormir muito bem, beijinhos, abraços, anda cá tu, agora vou eu aí, mas quando é para dormir não me toquem. É que não há romantismo que sobreviva a noites mal dormidas.
O Zé foi da minha turma do 5º ao 9º, depois fomos para agrupamentos diferentes mas na mesma escola e, em certos períodos, tivemos o mesmo grupo de amigos.
No 5º ano os outros colegas não gostavam do Zé e faziam pouco dele e outros pormenores que não me lembro bem, mas sei que às vezes ele andava sozinho pela escola porque não tinha ninguém para falar. Eu, que provei bem o sabor da impopularidade, ia ter com ele e às vezes eu e a minha mãe ficávamos a fazer-lhe companhia quando se via bem que estava muito triste. Depois, já no 7º, talvez 8º ano, os miúdos deixaram de ser parvos e deram-lhe uma oportunidade. Claro que adoraram o Zé e ele então era só um miúdo normal, como todos os outros. Mas nós ficámos sempre com esta amizade dos velhos tempos, daquela altura em que nem tudo era bom. Muitos anos depois, andávamos na faculdade, encontrei-o no expresso em Coimbra, estávamos os dois a pôr a mala na bagageira, disse-lhe olá e ele nem olhou para mim. Foi uma dor intensa, uma punhalada certeira, fiquei incrédula de indignação. Nessa noite os meus pais não ouviram mais nada, o meu Zé não me disse nada, fingiu que não me viu, éramos só nós dois. Numa outra altura, também no expresso e em Coimbra, disse-lhe outra vez Olá Zé e ele cego como da primeira vez. Depois percebi, a muito custo, que pronto, ele não queria falar comigo. Mas amiúde esta é uma situação que não entendo, que me magoa, que me recuso a aceitar. O meu Zé, daquela altura, fingiu que não me viu. E isto já foi há meia dúzia de anos e é uma porcaria duma pedra no sapato que não quero deixar ir. Estou a ver se ganho coragem para lhe escrever, mas a verdade verdadinha é que tenho medo que, mais uma vez, ele finja que não estou lá.
Se + 37 já custa, - 37 ainda custa mais
9 comentários Disse a margarida na/o Sexta-feira, Fevereiro 03, 2012Bem, era suposto ir amanhã de autocarro ao Mercado Sami de Jokkmokk. Partia ali duma terra vizinha onde tenho uma amiga, tal e qual como fizémos o ano passado. Autocarro marcado, todas as camadas de roupa pré-definidas, estratégia anti-congelamento decidida. Mas parece que hoje as temperaturas chegaram aos -37 e não é certo que, chegando lá, consigamos voltar. Para ir tudo bem, que o autocarro pode ficar ligado à ficha toda a noite, mas em parando umas horas já nada é certo.
Autocarro cancelado, a pé é que não posso ir. Esta terra está preparada para o frio, mas para tudo há limites.
A beleza do Inverno? É isto .4
23 comentários Disse a margarida na/o Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012Que agradável vai ser a caminhada de hoje
13 comentários Disse a margarida na/o Segunda-feira, Janeiro 30, 2012Estava a ver que não chegava o frio, já repetia todos os dias as estatísticas que no ano passado tivemos mais de 100 dias com temperaturas inferiores a -20. Mas para que raio comprei eu mais calças de neve se aquilo não passava ali dos -15/-18?
Pois bem, neste momento estão -28 e não há grandes perspectivas de aquecimento nas próximas 2 semanas. Vai buscar!
Acabei de fazer bacalhau com broa e grelos sem broa, sem grelos, sem bacalhau.
Melhor explicando, com bacalhau fresco congelado - que a proximidade à Noruega não quer dizer nada, sem broa - mas com um pão escuro de certo sabor que me pareceu bem, sem grelos - que substituí por repolho cozinhado a vapor. Ah! E ainda fiz puré em vez de fritar batatas porque não aprecio fritos por aí além. Não sei como é o verdadeiro, mas este está muito bom!
É muito mais fácil ter boas energias no Verão. Ou que esteja calor. Ou só sol.
Tenho que me lembrar 20 vezes ao dia pensamento positivo margarida.
Ansiar Portugal é injusto. Porque o meu Portugal é feito de abraços, reencontros, abundância, carinho, alegria, tempo, euforia permanente. E Portugal não é assim. Lá não penso no trabalho, nem na casa para arrumar, nem na fechadura não sei de onde que tenho para mudar, nem no chefe, não há Domingos à tarde, nem terças nem nada menos bom. Não há o dia-a-dia que tira a magia a todas as coisas. Tenho saudades dessa ilusão e é uma injustiça tremenda. Portugal não é verdadeiramente assim, e anseio sempre por uma realidade que não existe, e conto os dias para o meu país de conta e sonho com uma vida irreal.
Ter saudades é sempre injusto, principalmente quando nada disso existe.
O meu sonho não é ser famosa, nem aparecer em revistas, nem que toda a gente saiba que eu existo. Não desejo 100 pares de sapatos ou 20 viagens ao ano. Não quero que os outros achem que sou a melhor na minha profissão, quero ser o melhor que consigo e ficar contente com isso. Quero casar - não pela festa, mas pela vida. Quero um homem que me faça feliz, a quem eu faça feliz. Que me faça ser melhor quando estou a resvalar, que eu também o consiga resgatar. Quero filhos. Quero fazer 27 anos de casada e ter a voz de felicidade que ouço na minha mãe - que já viveu, sofreu, chorou, caiu, levantou-se, ama e é amada. Não quero ir a festas in nas discotecas da moda, quero sentar-me à noite a ler um livro e ser gostada por isso. Não preciso de um grande carro nem do último telemóvel. Quero uma vida normal, ir ao supermercado, cozinhar, dar o meu tempo à família e aos meus amigos. Não quero descobrir a cura para o cancro - mas quero muito que alguém a descubra - só não sou eu que estou talhada para isso. Não preciso de comprar 2 pares de botas por estação, nem sequer de salto alto. Podia ser mais assado mas sou exactamente assim e vivo bem com isso nuns dias e pior nos outros, mas é assim que quero ser. Não preciso de uma vida cheia de loucuras e aventuras, chegam algumas de quando em vez. Não sou radical, nem inconsequente, nem muito corajosa. Vivo bem sozinha mas talvez vivesse melhor acompanhada. Não preciso de uma sala de cheia de roupa, nem sequer 3 armários, mas quero sentir-me bem com o que visto. Sou uma pessoa que sucumbe ao apelo da espécie e quer uma família. É, o meu grande sonho é ter uma família, que modernaça que eu sou!
Durante muito tempo, e ainda de vez em quando, não sabia o que queria para mim, o que queria fazer, que tipo de pessoa viria a ser. É isto que eu acho que me faria feliz.
Como no Chocolate, quando Vianne Rocher sente o vento a pedir mudança - assim estou eu. Pode ser um grito por Primavera e o sol há muito perdido, pode ser algo mais.
Cds da Ana Moura uns atrás dos outros.
No outro dia na clínica pediram-me para cantar Fado, então não canto!
Este blog ainda não está em depressão
4 comentários Disse a margarida na/o Terça-feira, Janeiro 10, 2012Parece, que parece. Mas vim só de umas férias em que foi Natal todos os dias e pronto, dêem-me lá um desconto!
Em geral as pessoas acham sempre que sou mais corajosa do que aquilo que sou. Um exemplo disso é que arranjo sempre maneira de chorar quando regresso. Ou é porque estou cansada, ou porque não sei o que vai ser da minha vida, ou o que estou aqui a fazer, ou porque raio é que eu saí de Portugal, ou porque tenho medo de adormecer (true story - foi ontem, a gota de água do fundo do poço), ou porque ainda faltam mais de 10 semanas para me abraçarem outra vez e ser uma festa todos os dias.
Desta vez passou-me a neura rapidamente, mas o que eu quero saber é: acontece-vos o mesmo? Quanto tempo dura? Vai ser sempre assim? Quantos anos tiveram esta mania? É porque eu já vou bem lançada para os 2 anos e começa a ser chato.
E pronto, muitas longas horas depois já estou de volta à Suécia. Já dormi a sesta, agora é encher o frigorífico de comida e o coração de coragem.
2012, aqui vou eu.
O que eles não dizem mas eu sei que pensam
6 comentários Disse a margarida na/o Sexta-feira, Janeiro 06, 2012Volta e meia nas pausas do trabalho fala-se na crise. Uma coisa que até ver não está assim tão presente na vida dos suecos, mas claro que é usado como desculpa para mais produtividade, metas inatingíveis e tudo e mais alguma coisa, nunca sem aquele tom de alívio são eles, ainda não somos nós.
Depois falam da Grécia, muito zangados porque os gregos não se deviam reformar aos 45 quando eles trabalham até aos 65, porque são preguiçosos, porque apanham sol todo o dia, porque se não gastam mais do que ganham os gregos também não o deviam fazer. Digo-vos: generalizações assustadoras.
Nunca falam de Portugal, às vezes lá vão perguntando como é, como estão os nossos amigos, o que dizem as pessoas, mas nunca dizem - à minha frente - o que dizem da Grécia. Mas pensam. Eu sei que pensam. Naquele instante depois de terem dito o que queriam e acreditam piamente ser verdade sobre a Grécia, contrariam a tendência natural de começar tudo de novo sobre Portugal.
E esta crise e os seus efeitos vai tão mais além do que pessoas que não trabalham e se reformam incrivelmente cedo. Enfim, enerva-me quando falam da Grécia como se fosse um destino de férias de pessoas preguiçosas e caloteiras, porque sei que é o que pensam de nós. É que em Portugal trabalha-se muito mais horas que na Suécia, e na Finlândia já agora, que aquilo é um paraíso de tempo livre.
Isto não é uma resolução de ano novo
4 comentários Disse a margarida na/o Quinta-feira, Janeiro 05, 2012Estou ansiosa para ver o que 2012 me reserva.
No outro dia estava a analisar a agenda, um processo ambíguo que inclui virar folhas, escrever aniversários, assinalar datas, estudar feriados, e pensei - onde é que estarei no fim do ano? Se calhar no mesmo sítio, mas vamos ver, vamos ver.
Não digam que a vida não tem humor
3 comentários Disse a margarida na/o Quinta-feira, Janeiro 05, 2012Não sei se se lembram, já foi há quase 2 anos, que queria comprar um seviço de mesa da Arabia Finland. Caros, mas bons. Depois pus-me a pensar, mas que raio margarida, então tu tens a Vista Alegre, a Spal, a Atlantis e vais-te pôr a comprar coisas finlandesas? E então decidi, mentalmente, que quando comprar quero um serviço português, pode ser caro mas são bons, e são nossos e nem preciso de comprar tudo de uma vez, e são lindos e é um orgulho.
Então hoje pus-me a pesquisar nos sites e posso dizer que é impossível escolher. São tantos e tão lindos que tiro o chapéu a quem sabe exactamente o que quer.
No outro dia, enquanto passeava calmamente pelo Continente - o hipermercado, fiquei fascinada pela colecção Blue Rain da Spal. Por acaso, ou não, foi esta colecção que deu o Prémio Design Plus 2010 à Spal. Sabiam?
Li uma entrevista de Ljubomir Stanisic a propósito dos motivos de orgulho de ser português e diz ele a certa altura "Enerva-me ver portugueses a dizer mal de Portugal e uns dos outros. Sou contra isso". Grande homem este.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe / Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão
2 comentários Disse a margarida na/o Segunda-feira, Janeiro 02, 2012Peguei nas Obras Completas de Fernando Pessoa - volume I, um livro mais grosso que a bíblia, e enconcontrei um verdadeiro tesouro lá dentro. Marcadores de livro, post-its, uma lista de resoluções para o ano 2008, uma lista de coisas a comprar que inclui coisas que continuo sem ter como umas botas cinzentas ou umas calças de bombazine brancas, a capa de um cd de medicina oral, quadrados de papel com uma ou duas pintas - um código que já não sei interpretar, uma nota de 500 do Monopoly.
Adoro encontrar pistas da pessoa que já fui.
Hoje encontrei na cidade o meu primeiro namorado, o que se mudou para o Brasil. Já não o via à vontade há uns 6 anos. Foi preciso eu emigrar, ele emigrar e ser Natal. Ainda tive o grande bónus de ver a Sena, aquela Labrador linda cor de chocolate que me tirou o medo de cães. Já está velhota, uns 8 anos, falta-lhe pêlo nalguns sítios e não se lembra de mim. Sinto tanta falta daquela cadela.
Vocês não imaginam como tenho sido feliz nestes dias. No outro dia fui jantar com um amigo (Sr. Engenheiro, se me estiver a ler) e duas amigas do secundário viram-me da janela do café e já combinámos um jantar. Isto só acontece no meu país, na minha cidade, com as minhas pessoas. Como é que pode não ser Natal?
Portugal, não há país mais bonito que o meu
7 comentários Disse a margarida na/o Terça-feira, Dezembro 27, 2011Cheguei bem, cansada, com sono, mas uma felicidade imensa. Alguém me tinha dito que o tempo só piora esta coisa das saudades e da ânsia das viagens, não fica nada mais fácil ao contrário do que se possa imaginar. No aeroporto foi uma coisa à filme, deixei a minha mala num cantinho e abracei os meus pais durante eternidades (só não foi no meio de toda a gente que eu não gosto de cenas). Contive as lágrimas a custo.

