25 de setembro de 2016

Never ever alone

Estou três noites em Amesterdão e na primeira noite encontro-me com a Sofia - Andorinha, depois de vários anos a trocar mails. No segundo dia encontro-me com um amigo do secundário, que foi por acaso o meu primeiro desgosto de amor, aquela dor dilacerante e desconhecida que parecia não ter fim. Mas tem, e tudo sara perfeitamente sem resquícios de rancor ou desejo ou algo mais que não seja carinho e reconhecimento. Dar tempo ao tempo, funciona para tudo, todas as vezes. No terceiro dia almocei com um engenheiro eletrotécnico que viveu toda a vida no Dubai, que conheci numa tour de bicicleta pelo "campo". E além de toda esta pouca solidão, o tempo tem estado maravilhoso, um verão prolongado para eu aproveitar o que não me permiti em Agosto, os museus a que fui foram maravilhosos e senti pela primeira vez o coração a bater mais rápido ao olhar para uma obra de arte, sensação que se repetiu outras vezes, como se tudo o que fosse preciso fosse aquela primeira vez.
Amesterdão. Zwolle. Utrecht. Roterdão. Depois irei para casa. 
E o que eu gostava mesmo era ter feito 5 dias de bicicleta pela Holanda. Pela beleza do país, pela liberdade da bicicleta, pelo cansaço físico que é a única coisa que me deixa a cabeça vazia e o coração cheio.

22 de setembro de 2016

Who in the world am I?

Pergunta a Alice e pegunto-me eu. E a cada nova experiência vou descobrindo, e em cada canto vou deixando pedaços de ti, e um dia não me lembrarei de ti nem quando estou a escorrer de cansaço, como agora, nem quando me servem uma granola perfeita com os morangos mais doces, como hoje ao pequeno - almoço. Esta cidade é maravilhosa.

19 de setembro de 2016

Gostei logo dela mal soaram os primeiros acordes


Com o spotify numa lista qualquer, apareceu esta música e eu passei o dia a ouvir e a cantar, a ouvir e a cantar. É a letra, a melodia, a junção das duas, é o sol de Outono, o calor de Setembro, é o meu coração afinal não estar tão estilhaçado e a esperança no futuro, esse motor de todas as coisas. É o melhor de mim estar para vir: adoro o meu apartamento, vou viajar, começar um trabalho novo, tenho um curso daqui a um mês, e sei que a conjugação destas coisas todas fazem-me ser a melhor versão de mim própria.
Sim, cabe tudo numa música que não tem nada a ver. Os mistérios desta vida.

Já nem sequer sei colocar vídeos do YouTube, onde isto chegou.
Para os interessados: Hudson Tayler - Care.

15 de setembro de 2016

How can you mend a broken heart

Os meus desgostos de amor acabam sempre comigo a marcar viagens. Também marco algumas só porque sim, mas outras é por isso. Para me mostrar que consigo, que sei, se tenho medo então vou e faço mesmo, que o que receio ainda mais é deixar de fazer coisas por medo. A mim nada me assusta, gosto de acreditar que é assim.
E desta vez marquei de ontem para terça que vem, menos de uma semana de antecedência. Não li nada, não planeei nada,  não sei nada. Esta não era eu, mas afinal sou. Ainda tenho tempo de me informar, e mesmo que não tenha, tudo correrá pelo melhor. Com esta evolução, da próxima vez é ver-me de mochila às costas com um bilhete só de ida para o mundo.

3 de setembro de 2016

Outra vez arroz?

Muitas vezes esqueço-me que sou mais que a minha insegurança e os meus receios. Eles falam tão alto cá dentro que não me concentro em mais nada. E que tu não me queiras, que não gostes de mim, que não aches que valha a pena o empenho apesar da distância, isso não me define. O que valho não está dependente do que achas nem do que estás disposto a investir. Mas eu sou cega contente. Vou ao fundo do poço das incertezas e inseguranças e lá fico, a olhar para cima, a perceber tudo através de sombras e sons e interpretações, em vez de ver à luz, de me levantar e seguir em frente, que no mundo há tantos abismos para onde me atirar. 
Este medo, esta dúvida, que sejas tu. E se és tu, só tu? Claro que não és, isso não existe, ou existe sim, mas não vem da rejeição. Esse amor único, aquela pessoa, vem da escolha, da compreensão, de todas as virtudes e mais alguma e dos defeitos partilhados, aceites, tolerados. Podíamos ter sido tudo isso? Podíamos, se quiséssemos os dois no mesmo momento, se os teus defeitos não me deixassem fora de mim, se os meus não te afastassem sem retorno. Se, se, se.
Mas eu levanto-me, canso-me e volto a sentar, e parece que não quero sair daqui mas estou cada vez mais perto do fim. 
Sim, não somos nós. Não seremos nós. E não faz mal, porque se nos fizesse bem não tínhamos duvidado e não estávamos aqui. Eu sim, mas ia a caminho de ti.
Um dia as perguntas vão parar e as respostas não interessam porque não as quererei ouvir. E até lá dói, mas crescemos e aprendemos, ainda que mais nada, aprendemos a sobreviver. E vamos resistindo e depois um dia damos por nós a viver, a rir sem amarras, a olhar para o vazio e ser só o vazio, não o espaço no peito onde não estás. E o caminho vale tanto a pena, esta vida vale tanto a pena. 

21 de agosto de 2016

Este blog é o meu muro das lamentações, não há como negar

Passei o Verão a achar que gostávamos um do outro e que dávamos a volta a isto.  Disse-te e estava piamente convicta que gostava de ti por ti, não uma ideia de ti, de um companheiro, de uma relação, de ti mesmo assim como és e de nós. Passei as férias a falar sueco na minha cabeça, a escrever em sueco nos papéis que encontrava para esvaziar a cabeça, com argumentos para trás e para a frente e aquela ondulação ciclónica de quem acredita e duvida e tem sono mas não dorme e não tem fome e diz que é do calor só para disfarçar. Senti-me forte por te dar o espaço que se pedia, coisa em que não acredito, a perceber mas a negar que a distância já era grande e o caminho sem volta. 
Depois achei que ainda não tinha feito tudo, já fiz tanta coisa, podia fazer mais esta ou aquela, para me tranquilizar, para saber que fiz o que estava ao meu alcance. Mas está errado, essa seria eu a cometer os mesmos erros, a humilhar-me achando que é por amor, ou pelo amor que há-de vir. 
E ainda que juntos tenhamos sido os melhores de sempre, fomos mesmo tão bons, eu mereço alguém que goste de mim pelo que sou e queira ficar por isso, ou apesar disso, não sei como funciona. Tenho as minhas falhas que aceito, perdoo e estou disposta a trabalhar.  Mas mereço que me queiram como eu quero, e que desistir não seja a melhor das tentações. E então por isso sei que não, não somos assim tão bons, e não, não vamos chegar lá à frente muito à frente, olhar para trás e ver o caminho maravilhoso que percorremos. Não, procurar-te não é lutar, não falar não é desistir, esse foste tu; é que eu gosto de mim e tenho muitas coisas boas e às vezes esqueço-me e até o faria de bom grado para nos levar a bom porto, mas esse é o caminho errado.
E eu tenho de ler isto quando tiver muita pena pelo que não foi e lembrar-me que se calhar o que eu gostava era mesmo uma ideia de ti, de nós. Se fosse mesmo como achava, não estávamos aqui, e as minhas férias tinham sido tão boas quanto as tuas, quantos ainda estávamos juntos, e eu não tinha passado o tempo todo a querer que as minhas acabassem. Cada um tem de lutar pelo que acredita e se não acreditas em nós eu não posso acreditar pelos dois, nunca funciona assim e dessa maneira também não quero.

30 de maio de 2016

O flagelo de ser emigrante

Já levo 6 anos disto. 6 anos, 3 meses e 2 semanas, para ser mais exacta. Começam a faltar-me as palavras em português. Quando falo com os meus amigos portugueses meto sempre palavras suecas pelo meio pelo simples facto de não precisar de me esforçar para encontrar o termo certo. Mas ainda ontem estava a falar com os meus pais e não consegui dizer o que queria. Não era prova, não era campeonato, era tävling. E isso em português? Eles lá perceberam a ideia mas fiquei a remoer nas palavras até me lembrar, uma boa hora mais tarde, que o que queria mesmo mesmo dizer era competição, ou torneio, em sueco é a mesma palavra para tudo.
E eu sei que é ridículo porque aprendi a falar em Portugal e até não me saía mal em vocabulário e regras gramaticais, mas agora não. Cada vez falo pior e se isto continuar assim daqui a outros seis anos já não digo nada que faça sentido. O melhor é deixar-me ficar por aqui.

29 de maio de 2016

Coisas cá deles .17

Encontrar casa. 
Não sei se é lobby se é  (mau) planeamento, mas encontrar casa em qualquer sítio da Suécia é uma aventura.
A pior parte de mudar de trabalho/cidade é mesmo escontrar casa. As empresas de aluguer funcionam por sistema de pontos, o que implica estar em lista de espera há vários anos. Ora se uma pessoa muda para um sítio novo e inesperado claro que não está inscrita  em lista nenhuma. 
Já  tentei explicar este método aos meus amigos em Portugal mas é  altamente incompreensível. 
Enfim,  deram-me a dica de escrever carta aos senhorios (assim mesmo à  antiga, em papel, que e-mail não é a mesma coisa)  a apresentar-me e com uma foto minha. Que pessoas giras têm sempre prioridade. Só a ironia de acharem que isso se aplica a mim. Mas enfim, por tentar nunca ninguém morreu e quem sabe não tenho sorte. Preciso de casa a 1 de Setembro. As cartas estão lançadas. Assim mesmo, em trocadilho.

6 de maio de 2016

Para mais tarde recordar

Quando for  Outubro e os níveis  de esperança  estiverem na reserva quero recordar o dia de ontem. 5 de Maio e é  Verão  na Suécia. Dormi a noite  inteira e acordei nova, passeio na floresta  em t-shirt, as vitsippor todas em flor, o meu primeiro voo de parapente, churrasco na praia ao final  do dia. É  difícil  ser mais perfeito  que isto.

Tenho dormido muito mal

Pouca coisa me tira o sono, ir a cursos, viagens intercontinentais, países desconhecidos, ir para Portugal no dia seguinte ou voltar à Suécia, reuniões, tranquilo, durmo que nem um bebé.
Mas mudar de emprego e estar apaixonada está a dar cabo de mim. 

27 de fevereiro de 2016

Patagónia. Argentina

Eu já  sei  que a Patagónia  vai ser daqueles amores que nos conquistam devagarinho, ocupando  o seu espaço  como  se sempre  tivessem existido em nós. E será recordada  com  saudade e admiração.

26 de fevereiro de 2016

Como se eu tivesse 3 anos

Expliquem-me lá exatamente em que é que o cartaz de Jesus é muito diferente das caricaturas de Alá? É que eu estava em crer que éramos todos Charlie, pela liberdade de expressão a todo o custo mas afinal não, que não se pode usar o nome de Jesus em vão.  Sacrilégio, falta de respeito, mau gosto, sei lá que mais. Afinal somos mesmo todos iguais, nós e os nossos telhados de vidro.

6 de fevereiro de 2016

Escrever para não esquecer

Estava agora a almoçar  umas empanadas quando passa na televisão  uma notícia sobre windsurf em ondas gigantes, na Nazaré.  Estou em Buenos  Aires.
O mundo é  mesmo pequeno.

5 de fevereiro de 2016

A caminho .2

Sou uma velha muito velha, não há como negar. Eu daqui a nada páro com esta série  de posts até porque fico sem internet. Adiante.

Estou sentada  no aeroporto e ouço  um rapaz  três filas atrás a mastigar amendoins de boca aberta. Um aeroporto não é tão silencioso como uma igreja. Até tive de me virar para ver o que era aquilo. A sério, existe mastigar de boca aberta e depois existe este rapaz que está  numa escala  muito extra.

A caminho

A miúda  que vem sentada ao meu lado está  a pintar-se como uma profissional.  Pôs  o iPad em modo espelho e aqui vai disto. Mas não é  uma sombra e um pouco de rimel. São várias  camadas e vários pincéis , e espalha na mão e põe  na cara. Cara, testa, pescoço.  Perfume. Escova do cabelo.  Eu estou  a escrever e ela nao pára  de sacar coisas da bolsa.
Isto não  é  uma crítica, acho fascinante quem tem um à vontade  assim. Eu nem para usar fio dentário  na casa  de banho pública. 
E agora sacou do pó  bronzeador. Não  tem fim. Aposto que ela  só  sai em Estocolmo  que é  daqui a 40 minutos.
E eu vou publicar este texto e ela continua.  Agora  nas sobrancelhas.

30 de janeiro de 2016

Tirando isso, nunca me preocupo com roupa

Por força das circunstâncias estou mais que habituada a fazer malas, normalmente na noite anterior e em menos de meia hora despacho tudo e quase nunca me esqueço de nada. Já lá vai o tempo em que pela alegria de ir a qualquer lado deixava a mala pronta com uma semana de antecedência, ali no hall de entrada para me alegrar as chegadas a casa. Mas adiante, para a semana vou à Patagónia e estou com muitas dificuldades em escolher roupa. Não é meramente uma indecisão fashionista, diz que precisamos de roupas funcionais para caminhada, óculos de sol, gorro, boné, calças impermeáveis, protetor solar, calções, t-shirt, camisola polar. De tudo um pouco na inteira extensão das roupas sazonais. Enfim, eu tenho uma coisa de cada, mas e se não levo mesmo aquilo que é preciso, e se depois a roupa não seca? E se tenho calor? E se chover o tempo todo e não tenho coisas impermeáveis que chegue?
Eu sei, tudo problemas reais e de extrema importância.

29 de janeiro de 2016

Quanto é que acreditamos nessas coisas?

Hoje logo pela manhã parti um espelho duplo. 
7? 7+7? Ou a teoria de um amigo que só pode significar novos começos?

12 de janeiro de 2016

E a ti, o que é que te aconteceu ontem?

Hoje tive um paciente sírio que veio acompanhar os filhos trigémeos à consulta. Fugiu há quatro anos da Síria, vive na Suécia há três. A irmã com os seus quatro filhos e marido continuam lá.
Ontem caiu uma bomba no apartamento onde vivem, as duas filhas mais velhas, 18 e 20 anos, estavam na cozinha a fazer o jantar e morreram. Ontem.
Ao ouvir isto pergunto-me como é que mais alguma coisa importa. Uma pessoa queixa-se que é segunda e está cansada e neva tanto e sei lá que mais, mas algures no mundo alguém faz o jantar, cai uma bomba e o mundo desaba.

6 de janeiro de 2016

Eu sei que já vivi atrás do sol posto

Mas agora está  calor em Portugal e vou ter de voltar para a minha terra do norte onde as temperaturas  oscilam entre  -15 e -19. Não  estou preparada para isto.